Trump ataca Fed após Warsh bancar alta de juros nos EUA

Trump ataca Fed após Warsh bancar alta de juros nos EUA

Imagine a cena: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, escolheu pessoalmente o novo comandante do Federal Reserve. Meses depois, esse mesmo comandante vota a favor de um aumento nos juros — e o presidente vai às redes sociais soltar faísca. Foi exatamente o que aconteceu nesta quarta-feira, 16 de setembro.

Em publicação no Truth Social, Trump não economizou nas letras maiúsculas: “As taxas de juros nos Estados Unidos deveriam ser de 1% ou menos, porque temos o melhor crédito do mundo — DE LONGE”. E completou, sem meias palavras: “REDUZAM AS TAXAS DE JUROS PARA OS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, E RÁPIDO!”.

Vale contextualizar. Essa foi a crítica mais direta — ainda que nas entrelinhas — que Trump já fez a Kevin Warsh, o chair do Fed que ele mesmo indicou em maio para substituir Jerome Powell. Powell, aliás, era alvo frequente das reclamações presidenciais por não promover os cortes agressivos que Trump cobrava. Mesmo depois do desabafo online, o presidente disse a jornalistas que segue confiando em Warsh.

“Eu… conversei com o Kevin”, declarou Trump, dando a entender que houve um contato com o chefe do Fed — algo que o próprio Warsh não confirmou até agora. “E eu disse que ele poderia muito bem votar com a diretoria, porque isso não vai fazer diferença. A diretoria é muito hostil. Eles são muito politizados. Estão agindo de forma errada.”

Na mesma linha de posts recentes, Trump voltou a amarrar os déficits comerciais dos EUA aos custos de financiamento definidos pelo banco central — duas coisas que, na prática, têm pouca relação entre si. Ele já ameaçou até interromper todo o comércio com países que geram déficit para os americanos caso o Fed não corte os juros. “A palavra ‘déficit’ nada mais é do que um termo rebuscado para ‘PERDA’. Estamos ‘sustentando’ quase todos os países do mundo, e isso não pode continuar assim”, escreveu.

O timing não poderia ser mais simbólico. Pouco antes das declarações, os formuladores de política monetária do Fed aprovaram por unanimidade um aumento de 25 pontos-base, levando a taxa para a faixa de 3,75% a 4,00%. Warsh classificou a medida como “uma decisão sóbria, séria e responsável”. “O fato é que a inflação está alta demais e já está assim há tempo demais”, justificou.

E o ciclo pode não parar por aí. Novas projeções mostram que 16 das 18 autoridades do Fed esperam pelo menos mais um aumento de um quarto de ponto percentual até o fim do ano. Apenas duas acreditam que as taxas ficarão estáveis daqui pra frente. Warsh, por sua vez, reafirmou que é contra divulgar orientações prospectivas e não apresentou projeção própria.

A nomeação de Warsh aconteceu em janeiro, para suceder Powell — apelidado por Trump de “tarde demais” por adotar uma postura mais cautelosa com cortes no ano passado do que o presidente gostaria. Warsh assumiu prometendo preservar a independência do Fed na política monetária, mas buscando maior sintonia com a Casa Branca em outros temas. Sua confirmação no Senado quase foi comprometida por uma investigação federal sobre Powell e por reformas na sede do Fed.

No início do mandato, Warsh orientou as autoridades a manterem as taxas estáveis, embora nem todos concordassem diante das pressões inflacionárias. Nesta quarta-feira, porém, ele deixou claro que a hora de agir chegou. “Os dados de inflação deste verão (nos EUA) não me indi…”, afirmou, antes de ser interrompido — mas o recado já estava dado: o Fed não pretende ceder à pressão presidencial tão cedo.

Fonte: www.infomoney.com.br

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