Abel segura os demônios, mas o Palmeiras precisa segurar a bola

Abel segura os demônios, mas o Palmeiras precisa segurar a bola

O microfone saiu intacto, e isso já é um avanço. Mas o Verdão ainda precisa aprender a não deixar os jogos escaparem pelos dedos. Confesso que a cena criada por Abel Ferreira após o empate sem gols com o Botafogo até me agradou. Não pelo resultado, claro — as consequências dele deixaram a tabela preocupante. Empate do Palmeiras virou quase uma reunião de condomínio: todo mundo tem algo a reclamar. O que me chamou atenção foi a sinceridade quase teatral do treinador ao admitir que conseguiu controlar os “demônios” internos.

Os tais demônios, aparentemente, estavam bem posicionados à beira do gramado, com três microfones de companhia. Segundo Abel, eles estavam ali praticamente para assistir aos erros da arbitragem e, quem sabe, dar um novo chute. Na rodada passada, um desses aparelhos não teve a mesma sorte contra o Mirassol — o episódio rendeu julgamento, suspensão e efeito suspensivo. Desta vez, o microfone sobreviveu. O futebol, nem tanto.

Há algo quase cômico nisso: Abel passou de protagonista de um incidente com microfone a fiscal da distribuição deles. Questionou por que os equipamentos ficam tão perto do banco, perguntou se estamos no “Big Brother” e comparou com o que vê na Europa. O homem, convenhamos, não deixou o assunto morrer. Pelo visto, microfone perto do banco virou quase um novo adversário para ele.

Mas existe uma questão mais interessante por trás da cena e das piadas. Abel tem razão ao pedir critérios coerentes. Também tem razão ao defender sua personalidade competitiva. O problema é que personalidade não pode ser confundida com destempero. Ser intenso é uma característica; chutar microfone é um comportamento. Reclamar da arbitragem é compreensível; transformar a reclamação em pauta permanente já é outra história.

E talvez esteja aí a ironia — e o problema. Abel segurou os demônios no Nilton Santos. Palmas para ele. O próximo passo seria ensinar o Palmeiras a controlar os próprios demônios dentro das quatro linhas. Porque o time teve 63% de posse de bola, finalizou 17 vezes contra 13 do Botafogo e passou boa parte do jogo com a redonda. Só que posse não paga aluguel, finalização não entra automaticamente na súmula, e domínio territorial não significa domínio do jogo.

O Palmeiras teve a bola, mas não teve o jogo inteiro. E essa diferença parece pequena até olharmos para a tabela. O time chegou a abrir uma vantagem confortável na liderança e sustentou a ponta por meses. Agora, após uma sequência de tropeços, perdeu o primeiro lugar para o Flamengo por um ponto. O problema, portanto, não é ter empatado no Rio. O problema é que o empate começa a parecer menos um acidente e mais um sintoma de uma equipe que está com dificuldade para transformar volume em controle, controle em chances claras, e chances em gols.

É curioso como Abel passou boa parte da coletiva falando sobre controle. Controle dos demônios. Controle dos critérios. Controle da arbitragem. Controle dos microfones. E fiquei pensando que talvez essa palavra seja justamente a mais importante para o Palestra neste momento. Não o controle emocional do treinador — embora ele importe —, mas o controle do jogo. A capacidade de fazer o adversário jogar aquilo que o Palmeiras quer, sem depender de uma bola espirrada, de uma individualidade ou de uma sequência de eventos favoráveis.

Não acho que Abel tenha virado o problema do Palmeiras. Longe disso. Também não acho que toda reclamação sobre arbitragem seja uma tentativa de esconder deficiências. Seria preguiçoso escrever isso. Mas seria confortável demais fingir que os problemas somem só porque o treinador tem argumentos para reclamar. O Palmeiras pode discutir microfones, STJD e critérios — mas o que realmente precisa discutir é como transformar posse em gol. Enquanto isso não acontece, os demônios de Abel até podem ficar quietos, mas os do time vão continuar aparecendo em campo.

Fonte: br.bolavip.com

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