Sísifo no Ninho: Por que o Flamengo insiste em recomeçar do zero?

Sísifo no Ninho: Por que o Flamengo insiste em recomeçar do zero?

Sempre tive uma fascinação por como os mitos gregos, com toda a sua antiguidade, conseguem traduzir o futebol moderno melhor do que qualquer análise tática de domingo. Um dos meus favoritos é o de Sísifo, aquele sujeito condenado pelos deuses a rolar uma pedra gigante morro acima, apenas para vê-la despencar de volta ao ponto de partida, obrigando-o a recomeçar o ciclo infinitamente. Essa imagem me veio à mente na hora em que analisei a saída de Filipe Luís e a chegada de Leonardo Jardim ao comando do Flamengo, no início do ano, especialmente ao observar a dificuldade do time em resgatar o padrão competitivo que o consagrou.

Não estou aqui para defender que Filipe Luís deveria ser imortalizado no cargo, nem para descreditar o trabalho de Jardim. O ponto que quero levantar é mais profundo. Um treinador não é apenas um cara que define a escalação ou o esquema tático para o fim de semana. Ele constrói princípios, automatismos, comportamentos e uma linguagem própria de interpretar o jogo. Isso exige tempo, repetição e paciência. Quando esse ciclo é interrompido, o sucessor não recebe uma casa pronta. Na maioria das vezes, ele encontra a pedra novamente no pé da montanha.

É aí que mora o perigo da eterna reinvenção. Os números podem até indicar fracasso ou sucesso, mas os mecanismos coletivos contam uma história muito mais complexa. Um modelo de jogo amadurece com a repetição. Pressão coordenada, ocupação inteligente de espaços, movimentos sincronizados, leitura coletiva — tudo isso não surge por acaso. São conceitos treinados diariamente, internalizados até se tornarem automáticos. Quando um treinador sai, boa parte desse aprendizado se perde, porque o novo comandante enxerga o jogo com outros olhos e impõe outras exigências.

Foi exatamente isso que aconteceu no Flamengo. Filipe Luís construiu uma identidade sólida, baseada em comportamentos específicos que culminaram em títulos de peso, como o Brasileirão e a Libertadores em um mesmo ano. Jardim, ao chegar, iniciou outro processo, com outras ideias e novos desafios. Não estou dizendo que um é melhor que o outro. A questão é que o elenco precisou desaprender para aprender de novo, o que pode ter custado ao time alguns trunfos que eram fundamentais no esquema anterior.

O torcedor, em geral, enxerga apenas a superfície dessa transição. Ele nota um volante diferente, um lateral mais recuado, um atacante ocupando outra faixa do campo. Mas as mudanças realmente significativas são invisíveis. Elas estão nos detalhes: na altura da linha defensiva, no timing da pressão, na forma de sair com a bola, na distância entre os setores e até no momento exato em que um companheiro deve atacar o espaço vazio. Esse conhecimento coletivo leva meses para ser consolidado e pode desmoronar em poucas semanas.

Por isso, a troca constante de técnicos me parece tão arriscada. A novidade tem um apelo sedutor — parece que basta um novo nome chegar para que todos os problemas sejam resolvidos. Mas o futebol não funciona assim. O elenco precisa abandonar velhos hábitos para incorporar novos conceitos, enquanto o clube cobra resultados imediatos. É uma contradição difícil de ignorar. No caso do Flamengo, a questão já não é apenas a espera, mas sim se a condução de Jardim está no caminho certo.

E volto a Sísifo. Durante séculos, seu mito foi visto como símbolo do fracasso eterno. Hoje, muitos o interpretam como uma metáfora da resistência. No futebol, porém, a comparação ganha outra camada. Sísifo era condenado a recomeçar. Os clubes escolhem esse caminho por vontade própria, sempre que interrompem um projeto antes de ele amadurecer. O Flamengo, ao trocar Filipe por Jardim, parece ter aceitado esse destino. Resta saber se a pedra, dessa vez, vai chegar ao topo ou se vamos continuar assistindo ao mesmo ciclo se repetir.

Fonte: br.bolavip.com

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