Palmeiras: como o Verdão reinventa sua hegemonia sem perder a alma

Palmeiras: como o Verdão reinventa sua hegemonia sem perder a alma

Tem uma ideia que circula no futebol e que eu, sinceramente, não compro: a de que competitividade é algo que vem no DNA do clube, como se fosse genética. Essa palavra virou muleta — explica vitória, justifica tropeço e, de quebra, evita as perguntas que realmente importam. O Palmeiras, nesse sentido, propõe uma reflexão bem mais concreta: como um time troca praticamente todos os grandes nomes de sua geração mais vencedora e segue mirando os mesmos troféus? A resposta não está estampada na camisa nem cabe em slogan motivacional. Mora no trabalho diário, nas decisões de bastidor e na habilidade de passar adiante uma cultura vencedora sem transformar o passado em altar intocável.

Voltemos a 27 de novembro de 2021, em Montevidéu. Naquela noite, o Palestra bateu o Flamengo por 2 a 1 e levantou a Libertadores pela terceira vez. Weverton, Gustavo Gómez, Luan, Piquerez, Danilo, Zé Rafael, Raphael Veiga, Gustavo Scarpa, Dudu e Rony figuravam entre os protagonistas da decisão. Era um grupo que já havia conquistado a América no ano anterior e que encontrou na continuidade uma vantagem competitiva real. Naquele instante, parecia lógico projetar que aqueles personagens ficariam por muito tempo. Só que o futebol, como sempre faz, lembrou a todos que eternidade é um conceito frágil quando existe janela de transferências.

Cinco anos se passaram e o retrato mudou drasticamente. Gustavo Gómez e Piquerez são os únicos dois remanescentes daquele título no elenco atual. E não basta olhar para a lista de nomes para perceber que não se trata de uma renovação qualquer. Danilo e Zé Rafael já não ocupam o meio-campo, Dudu e Scarpa também saíram, e Raphael Veiga, símbolo daquela geração, está emprestado ao América do México.

No lugar deles, novas características foram moldando a equipe. A transição não veio num passe de mágica, tampouco foi uma caminhada tranquila. Existiu uma geração intermediária que precisou lidar com a pressão de manter um padrão imposto por outros e, ao mesmo tempo, construir identidade própria. E é justamente aí que aparece o primeiro grande mérito do Palestra: a mudança não rompeu completamente com o projeto esportivo.

Abel Ferreira ficou enquanto boa parte dos jogadores que o acompanharam nas primeiras conquistas deixou o clube. Em março de 2026, ele chegou ao 11º título à frente do time alviverde, consolidando-se como o treinador mais vencedor da história palmeirense. Não trato esse número como explicação universal para tudo que acontece no clube. Trato como um dado relevante para entender a continuidade. Os rostos mudaram, mas uma referência técnica permaneceu no comando, capaz de impor exigências, cobrar postura e reorganizar hierarquias. A troca de geração não obrigou o Maior Campeão do Brasil a recomeçar do zero também no banco.

Só que seria simplista demais creditar a Abel toda a autoria dessa história. Nenhum treinador constrói sozinho uma cultura competitiva. É necessário contratar jogadores alinhados ao projeto, oferecer condições de trabalho, definir critérios e aceitar que até equipe vencedora atravessa fases de dúvida. O clube entra nessa conta tanto quanto o técnico. Existe uma diferença enorme entre preservar uma metodologia e apenas repetir fórmulas antigas.

O Verdão de 2021 tinha em Dudu um jogador capaz de desequilibrar pelos lados, em Scarpa uma fonte de criação e em Danilo uma peça-chave para equilibrar o meio-campo. O de 2026 reúne outras soluções: Andreas participando da organização, Marlon trazendo experiência e Giay assumindo responsabilidades diferentes conforme a estrutura escolhida. Não se trata de buscar substitutos equivalentes para os antigos protagonistas. Trata-se de recompor funções com peças novas, mantendo a lógica competitiva que fez o clube chegar onde chegou.

Fonte: br.bolavip.com

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