Você já parou para pensar que a dificuldade de pagar as contas no fim do mês pode estar diretamente ligada à demissão de milhares de trabalhadores no comércio? Um estudo inédito do Ibevar-FIA Business School revela um fio invisível que conecta o aperto no seu bolso à queda nas vagas de emprego no varejo, em um ciclo que se completa em até 12 meses.
Os pesquisadores usaram um modelo econométrico avançado (VECM) para analisar nove indicadores de crédito, renda e consumo. O objetivo era entender como o desequilíbrio financeiro das famílias se espalha pela economia real, como uma onda que começa pequena e vira um tsunami. E o que eles descobriram é surpreendente: ao contrário do que muitos pensam, o brasileiro não está endividado por excesso de consumo supérfluo.
Na verdade, 22,3% do endividamento das famílias em um ano é causado pela queda na renda real e pela necessidade de manter compras básicas, como supermercado, farmácia e roupas. É o que Claudio Felisoni, presidente do Ibevar, chama de ‘mecanismo de sobrevivência’. As pessoas não estão estourando o cartão por luxo; estão usando o crédito para comer e se vestir. A inflação corrói o salário, o crédito cobre as compras do mês, o atraso vira calote, e o comércio, sem vender, corta vagas.
O estudo mostra que esse ciclo tem uma velocidade própria. No primeiro mês, 94,5% do endividamento é explicado pela própria dívida, ou seja, juros e rolagem criam mais dívida. Mas, em 12 meses, essa inércia cai para 59,1%, e é aí que a falta de renda e a necessidade de consumo básico passam a responder por mais de 22% do problema. A dívida deixa de ser um descontrole financeiro e vira um sintoma de falta de recursos para sobreviver.
A inadimplência grave também não surge do nada. Ela começa com pequenos atrasos de 15 a 90 dias, quando as famílias espremidas priorizam o básico. Em um ano, esses atrasos se transformam em 65,1% dos calotes nas modalidades de crédito mais caras, como cartão de crédito e cheque especial. E isso realimenta a inflação: 11% das surpresas do IPCA vêm do aumento da inadimplência, porque os bancos encarecem o crédito para compensar o risco, pressionando os custos de toda a economia.
O impacto no emprego é direto. O varejo restrito é a principal força de sustentação das vagas de trabalho, explicando 21,8% das oscilações na ocupação em 12 meses. Mas o mercado de trabalho tenta resistir antes de demitir. Ele suporta o endividamento das famílias por 6 a 12 meses, período em que a autonomia da criação de vagas cai de 68,3% para 45,2%. Só depois de um ano de atrasos persistentes e queda nas vendas é que o ritmo de contratações é efetivamente travado.
E o cenário pode piorar. O estudo aponta que a probabilidade de agravamento da crise é alta, especialmente se a renda das famílias continuar estagnada. A conclusão é clara: enquanto o custo de vida subir mais que o salário, o crédito será usado para sobreviver, e o varejo, sem consumidor, vai continuar cortando postos de trabalho. Entender esse ciclo é o primeiro passo para buscar soluções estruturais, como a redução dos juros e o aumento real da renda, antes que a bola de neve fique ainda maior.
Fonte: www.infomoney.com.br

