Grandes corporações americanas estão dando marcha à ré nos compromissos sociais que antes defendiam, e os acionistas já estão cobrando o preço. Há duas semanas, a BP enfrentou protestos de seus próprios investidores na assembleia anual por ter enfraquecido metas climáticas. A Target viu suas ações despencarem 17% e as vendas caírem após recuar em iniciativas de diversidade e inclusão. Enquanto isso, os acionistas da Costco rejeitaram uma proposta contra essas políticas com impressionantes 98% de aprovação — e as vendas continuaram subindo. O recado é claro: clientes e investidores percebem quando uma empresa abandona exatamente aquilo que a tornava especial.
Agora, a guerra contra a responsabilidade social chegou ao setor de sorvetes. A Magnum Ice Cream Company, que se separou da Unilever há quatro meses e se tornou a maior gigante global do ramo, prometeu aos acionistas que administraria seu portfólio com responsabilidade. Mas não está cumprindo. Donas de marcas como Breyers, Klondike, Talenti e, principalmente, Ben & Jerry’s, a Magnum virou alvo de polêmicas. O cofundador Jerry Greenfield renunciou após 47 anos em protesto. O conselho independente e a Fundação Ben & Jerry’s entraram com ação federal contra a Magnum por quebra de contrato. A ex-presidente do conselho também processou a empresa por difamação na Califórnia. Em abril, Ben Cohen transformou a tradicional “Free Cone Day” em “Free The Cone Day”, pedindo que a Magnum vendesse a marca e incentivando consumidores a boicotarem seus sorvetes até que isso aconteça. Até agora, a diretoria não respondeu à pergunta mais básica dos investidores: qual é o plano?
Para entender o que está em jogo, é preciso reconhecer o que a Ben & Jerry’s realmente construiu. Dois amigos, US$ 12 mil, um posto de gasolina adaptado em Vermont em 1978 — e a crença de que uma empresa poderia fazer produtos excelentes enquanto defendia causas justas. Eles não criaram apenas uma marca. Inspiraram uma geração a provar que propósito e lucro podem caminhar juntos. E deu certo. A Ben & Jerry’s ajudou a restaurar direitos de voto para mais de 1,5 milhão de pessoas na Flórida. Melhorou as condições de mais de 200 trabalhadores rurais no Nordeste dos EUA. Defendeu leis que reduziram a pobreza infantil, como os programas Head Start e CHIP. Através de sua fundação, investiu mais de US$ 70 milhões em moradia, direitos de imigrantes e organizações democráticas. Isso não é apenas boa vontade — é um histórico de impacto mensurável, onde justiça social era parte central do negócio.
Esse modelo está sendo desmontado. Executivos da Magnum e da Unilever removeram membros do conselho independente que protegiam a missão social da marca, bloquearam recursos da fundação e silenciaram a empresa justamente sobre os temas que a definiam — da Palestina aos direitos indígenas e à justiça racial — quando se posicionar ficou inconveniente. Uma marca que milhões de americanos aprenderam a confiar está sendo esvaziada por dentro.
Os executivos podem achar que tirar a missão da Ben & Jerry’s é uma decisão empresarial sensata. As evidências mostram o contrário. Um estudo de 2023 da Jump Associates, analisando duas décadas de dados, indica que empresas com forte compromisso social tendem a ter desempenho superior no longo prazo. Ignorar isso não é apenas um erro ético — é um erro de negócios.
Fonte: www.infomoney.com.br



