O dólar encerrou a sexta-feira com uma oscilação discreta frente ao real, misturando o alívio vindo do exterior com a apreensão doméstica antes do primeiro turno das eleições. Lá fora, a moeda americana perdeu tração depois que os dados de emprego dos Estados Unidos vieram bem abaixo do que o mercado esperava. Aqui dentro, o clima de cautela falou mais alto, e o dólar até tentou cair com força no início do dia, mas acabou devolvendo boa parte do movimento.
Os investidores passaram o dia digerindo a mais recente pesquisa do Datafolha, divulgada na noite de quinta-feira, e também repercutindo o cancelamento do debate presidencial da TV Globo. Detalhe importante: o dólar à vista fechou com leve baixa de 0,13%, cotado a R$ 5,2173. Mesmo assim, no acumulado da semana, a divisa subiu 0,65%. No ano, a queda ainda é expressiva: 4,95%.
Por volta das 17h05, o dólar futuro para novembro, o mais negociado por aqui, recuava 0,34% na B3, a R$ 5,2425. Já o dólar comercial, na ponta de compra e venda, ficou em R$ 5,216.
O que mexeu com o dólar hoje?
O payroll, relatório de empregos dos EUA, decepcionou. As projeções em pesquisa da Reuters apontavam a abertura de 90 mil vagas fora do setor agrícola no mês passado, após uma alta de 133 mil em agosto (dado revisado para baixo ante 162 mil). As estimativas variavam entre 35 mil e 180 mil. Com o número fraco, o dólar perdeu força diante de boa parte das moedas, incluindo o real, e os rendimentos dos Treasuries despencaram. O motivo? A leitura predominante é de que esse resultado reforça a chance de o Federal Reserve manter os juros como estão neste mês.
Logo após o payroll, às 10h01, o dólar à vista tocou a mínima de R$ 5,1999, uma queda de 0,46%. Mas o cenário virou ainda pela manhã, quando o mercado brasileiro começou a precificar a disputa pelo Planalto. O dólar se aproximou da estabilidade e a cautela tomou conta.
Profissionais ouvidos pela Reuters avaliaram que, além da incerteza sobre quem vencerá a eleição, o noticiário político da noite anterior foi ruim para o senador Flávio Bolsonaro (PL). O Datafolha mostrou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem 48% das intenções de voto em um eventual segundo turno, contra 45% de Flávio. Os dois seguem tecnicamente empatados, já que a margem de erro é de dois pontos percentuais, mas Lula ampliou sua vantagem numérica para 3 pontos. No levantamento anterior, o presidente tinha 47% e o senador, 45%.
No primeiro turno, ainda segundo o Datafolha, Lula aparece com 42% e Flávio com 38%. Na terceira posição está Augusto Cury (Avante), com 4%. Flávio também desistiu, na noite de quinta, de participar do debate da TV Globo, que já não teria Lula. Logo depois, a emissora cancelou o debate. Enquanto Lula concedeu entrevista ao podcast Flow durante a noite, Flávio fez uma live própria.
No mercado, Lula é visto com desconfiança por boa parte dos agentes, que enxergam uma reeleição como obstáculo para o controle das contas públicas e, por consequência, da inflação. Assim, notícias não tão favoráveis a Flávio — como a vantagem numérica de Lula no Datafolha — tendem a pressionar o dólar para cima.
“Lula ganhou o debate sem participar. Foi péssima a estratégia do Flávio, que cancelou a participação pouco antes, e o Lula teve 1,5 milhão de audiência ao vivo no Flow”, afirmou o diretor da assessoria FB Capital, Fernando Bergallo. Para ele, a resistência do dólar em cair ante o real está ligada aos últimos acontecimentos da campanha. “É a disputa presidencial mais acirrada desde a redemocratização, superando 2022. Então o mercado, que não gosta de incerteza e indefinição, fica sensível”, completou.
Na maior cotação do dia, às 12h08, o dólar à vista marcou R$ 5,2404, alta de 0,32%. No restante da tarde, as cotações se moveram próximas da estabilidade, com os investidores à espera da votação no fim de semana. No exterior, o dólar seguia sem direção única.
Fonte: www.infomoney.com.br



