China usa matérias-primas críticas como arma contra o Ocidente

China usa matérias-primas críticas como arma contra o Ocidente

A China transformou seu domínio sobre matérias-primas críticas em uma verdadeira arma geoeconômica, e a Europa é o alvo principal. Essa é a conclusão do estudo “Beijing’s Critical Raw Material Weapon”, do European Union Institute for Security Studies (EUISS). O relatório mostra como Pequim usa insumos como terras raras, gálio e germânio para ganhar vantagem estratégica, industrial e tecnológica sobre o Ocidente. Segundo o documento, essa dependência não é apenas um risco econômico, mas uma vulnerabilidade estrutural para a Europa e seus aliados.

Atualmente, a China controla 70% ou mais do refino ou da extração global de metade dos 34 materiais que a União Europeia classifica como “críticos”. O estudo revela que o país domina mais de 74% da produção global em pelo menos um elo da cadeia de valor de cada um desses materiais, chegando a impressionantes 98% no caso de terras raras pesadas e gálio. Esses insumos, embora usados em pequenas quantidades, são indispensáveis em setores como defesa, telecomunicações, semicondutores, energia renovável, mobilidade elétrica e equipamentos médicos. Em outras palavras, sem os materiais refinados na China, grande parte da base industrial europeia e das funções de Estado simplesmente para de funcionar.

A força chinesa está concentrada no refino, fase onde o país detém o maior poder de mercado. Europa, Estados Unidos e Japão dependem dessa capacidade para produzir ímãs permanentes de alto desempenho, wafers para semicondutores e cabos de fibra óptica – componentes essenciais para a economia digital e verde. O relatório aponta que, embora EUA e Japão tenham lançado políticas para reduzir riscos, o progresso é limitado, e as iniciativas europeias são descritas como “comparativamente modestas”.

A partir de 2025, após novas rodadas de tarifas e controles tecnológicos dos EUA na era “Trump 2.0”, Pequim reagiu cortando abruptamente o fornecimento de várias matérias-primas críticas para quase todos os países. Mesmo com uma recuperação parcial das exportações em 2025 e início de 2026, os volumes ficaram bem abaixo dos níveis pré-controle. O estudo destaca que esse “aperto” deliberado gerou ao menos oito efeitos negativos para a Europa e seus parceiros, incluindo aumento de custos, interrupções produtivas e incerteza crônica nas cadeias de suprimento.

O relatório também enfatiza o peso do aparato regulatório chinês, especialmente o Ministério do Comércio. Empresas europeias e norte-americanas relatam que o processo de licenciamento para exportar certos materiais se tornou “altamente invasivo”, com exigências de envio de dados detalhados de produção, aplicações finais, fotos e até desenhos de componentes sensíveis, como motores de drones. Em alguns casos, a recusa em fornecer informações consideradas sensíveis resultou em negativas de licença, reforçando a percepção de uso político e estratégico das regras de comércio.

A opacidade do processo de licenciamento é um ponto central da crítica. Pesquisas com empresas europeias na China indicam que uma parcela relevante relata “falta de transparência” e “requisitos pouco claros” por parte do ministério chinês, o que leva companhias a entregar informações na tentativa de garantir aprovações. Muitas descrevem o ministério como uma “caixa-preta”, onde pedidos ficam em status pendente indefinidamente, sem critérios previsíveis. Na prática, isso aumenta o poder discricionário de Pequim e amplifica o efeito dissuasório sobre negócios que possam contrariar interesses estratégicos chineses. No plano doméstico, o uso dessa “arma das matérias-primas” mostra como a China transformou seu controle sobre recursos essenciais em uma ferramenta geoeconômica poderosa.

Fonte: www.infomoney.com.br

Compartilhar