Abel Ferreira acumula quase 800 partidas no currículo, um armário recheado de troféus e um talento raro para transformar coletiva de imprensa em capítulo de novela sem final à vista. Após o 2 a 0 sobre o Athletico-PR, o português escolheu ironizar os críticos que enxergam no Palmeiras um time sem repertório e nele um treinador ultrapassado. A resposta teve endereço certo, muitos destinatários e aquela sutileza de quem entrega flores calçando luvas de boxe.
Particularmente, aprecio quando o futebol nos presenteia com essas contradições escancaradas. O Palestra emendou a quarta vitória seguida, alcançou 66 pontos no Brasileirão e segue vivo na briga pelos três títulos que restam na temporada. Mesmo assim, o comandante precisou usar parte da entrevista para duelar com quem questiona suas ideias. É um paradoxo bem alviverde: enquanto o time corre atrás de taças, o treinador parece determinado a conquistar também o direito de dar a última palavra.
A ironia de Abel tem seu valor: escancara o exagero de algumas críticas. Não faz sentido ignorar o trabalho de alguém que ajudou a erguer uma das eras mais vitoriosas da história da SEP. Mas também não é necessário montar uma cerimônia de agradecimento a cada escalação para reconhecer isso. O português sabe que sua trajetória lhe confere crédito. O ponto é que, às vezes, ele parece querer cobrar os juros desse crédito em cada entrevista. No futebol, a memória dos títulos é longa, mas a paciência com uma atuação ruim costuma durar menos que o intervalo do jogo.
Essa relação já rendeu episódios suficientes para uma série com várias temporadas. Após a eliminação para o Corinthians na Copa do Brasil de 2025, Abel ouviu xingamentos de torcedores no Nubank Parque. Em outras oportunidades, o treinador reclamou da forma como parte da arquibancada trata os jogadores e cobrou reconhecimento pelas conquistas. A torcida, por sua vez, nunca deixou de manifestar insatisfação quando o desempenho ficou abaixo do esperado. É um relacionamento em que ninguém parece disposto a pedir o divórcio, mas ambos mantêm uma pasta de documentos pronta para apresentar na próxima discussão.
Abel reclama, mas quer a família presente no Palestra
O detalhe é que Abel não pede apenas compreensão para suas escolhas. Ele também quer que a torcida compareça e apoie o Verdaço nos bons e maus momentos, especialmente agora, quando o calendário oferece decisões em série. Entendo o argumento. O estádio não pode ser uma espécie de restaurante em que o cliente só aparece quando o cardápio promete filé-mignon e some quando o prato do dia exige algum sacrifício. Mas existe uma diferença entre pedir apoio e esperar aprovação permanente. O torcedor não é funcionário do clube, não recebe salário para aplaudir e não perde o direito de reclamar porque o treinador ganhou títulos.
Também seria injusto tratar a cobrança como invenção de quem não reconhece a grandeza do trabalho. O Alviverde construiu uma régua elevada, e foi justamente a sequência de conquistas que tornou o ambiente mais exigente. O sucesso tem dessas crueldades: depois de acostumar o público a disputar finais, até uma temporada competitiva pode ser examinada como se fosse um exame de recuperação. Abel participou diretamente da construção dessa expectativa e, portanto, não pode se surpreender quando ela aparece à porta. Quem ajuda a instalar uma régua no alto não deve reclamar toda vez que alguém resolve medi-la.
Sobre a polêmica referente ao repertório de Abel Ferreira
Sobre o tal repertório, prefiro olhar para o campo antes de aceitar a sentença de qualquer lado. Contra o Athletico-PR, o Palmeiras venceu mesmo depois de perder Andreas Pereira por expulsão ainda no primeiro tempo. Maurício e Piquerez marcaram, e o time precisou reorganizar suas tarefas
Fonte: br.bolavip.com



