Abel Ferreira está diante de uma daquelas escolhas que separam o técnico comum do estrategista de verdade. A preparação do Palmeiras para o primeiro duelo contra o Vasco, pela Copa do Brasil, coloca no caminho do português uma decisão que vai muito além de simplesmente escalar mais um atacante. A chance de Vitor Roque iniciar ao lado de Flaco López sinaliza um time disposto a empilhar presença ofensiva — mas, como todo ganho tem seu preço, o custo recai justamente sobre o setor que sustenta o funcionamento coletivo do Verdão: o meio-campo. Em uma semifinal, atacar mais pode até ser necessário; o desafio é descobrir de onde tirar essa força sem desmontar a engrenagem.
Os candidatos a deixar a formação são Marlon Freitas e Lucas Evangelista. E a dúvida está longe de ser trivial. Marlon acumula 58 partidas na temporada e 4.776 minutos em campo. Evangelista, por sua vez, foi titular nos sete compromissos disputados desde a última Data Fifa. Os números de Marlon, sozinhos, já dão a dimensão exata do tamanho dessa decisão.
O volante ainda aparece entre os jogadores de linha mais utilizados do futebol brasileiro em 2026. Sua participação sustenta a circulação da bola, ajuda na organização da saída e mantém as distâncias entre os setores. Tirá-lo do time significa redistribuir responsabilidades que não desaparecem só porque um substituto entra em campo.
Já Lucas Evangelista levanta outra discussão. Sua presença permite ao Palestra trabalhar a circulação e encontrar conexões entre a primeira construção e os jogadores mais adiantados. Na Série A, soma 28 partidas e 1.079 minutos; na Libertadores, 12 jogos e 559 minutos, conforme os registros da temporada. A sequência recente como titular também explica por que o desgaste surge entre as preocupações da comissão técnica. Preservá-lo pode ser uma decisão física — mas também altera a forma como o time organiza suas posses de bola.
E é aí que Andreas Pereira se transforma no X da questão na meiuca do Palestra. O meio-campista soma 56 partidas, 4.228 minutos e 12 participações em gols na temporada. Os registros da Opta apontam quatro gols e 12 assistências em todas as competições; na Série A, são dez assistências em 31 jogos. Sua capacidade de encontrar passes e conectar setores pode compensar parte da perda de um companheiro — mas isso não quer dizer que ele consiga acumular sozinho todas as funções de construção e proteção. O espaço que receberá à frente também vai depender de quem estiver ao seu lado.
A possível dupla de ataque acrescenta uma camada extra ao problema. Com Flaco López e Vitor Roque, o Verdão ganha duas referências capazes de atacar a última linha, disputar a área e oferecer movimentos de profundidade. Flaco pode encontrar mais liberdade para ocupar espaços próximos ao gol, enquanto Vitor oferece deslocamentos que incomodam a organização defensiva adversária. O ganho potencial está na variedade de movimentos — não simplesmente na quantidade de atacantes.
Mas onde entra a formação com três zagueiros nessa história? O risco aparece quando a equipe perde a bola. Com um homem a menos no setor central, os espaços entre a linha de meio-campo e a defesa podem aumentar, especialmente se os alas estiverem projetados. Giay e Piquerez precisam encontrar o momento certo de avançar sem deixar os três zagueiros expostos a situações de inferioridade. A estrutura com três defensores oferece uma proteção inicial, mas não elimina a necessidade de recomposição e cobertura dos jogadores que atuam à frente deles.
O Vasco, aliás, dá motivos de sobra para que Abel trate essa questão com atenção redobrada. Na classificação contra o Vitória, Pedro Emanuel mostrou ser um treinador capaz de alternar bloco mais baixo, pressão adiantada e saídas em passes longos. Sosa, volante argentino, tinha papel importante na proteção da defesa e no controle das distâncias entre as linhas. É esse tipo de adversário que pune qualquer desequilíbrio estrutural — e Abel sabe disso melhor do que ninguém.
Fonte: br.bolavip.com



